Mãos femininas que trabalham, produzem e alimentam o Brasil

No horizonte ocre das lavouras do sudoeste goiano, a luz do amanhecer desenha histórias que o vento leva adiante. Ali, mãos que um dia receberam o legado familiar agora colhem realidades: sementes que brotam, solos que florescem e vidas que se entrelaçam com o abastecimento do país. É na curva suave de um grão de soja que se lê o retrato de um Brasil que não apenas produz, mas transforma pessoas, tecnologia e sociedade. Um cenário em que as mulheres deixaram os bastidores para tornarem-se protagonistas à frente da produção, da gestão e da inovação.

Renata Ferguson é o rosto dessa transformação. Caminhar pelas terras da Fazenda Santa Cândida, em Rio Verde, é mergulhar em uma herança que remonta à década de 1970. A trajetória da produtora no agronegócio é o capítulo atual de uma saga iniciada em 1971, quando seu avô, Oliver Ferguson, trocou Piracicaba (SP) pelo desafio de desbravar o Cerrado. A linhagem de pioneirismo seguiu com seu pai, John Lee Ferguson, um dos baluartes na fundação da cooperativa COMIGO, em 1975.

“Sou a ‘filha homem’ que o John Lee não teve”, brinca Renata, que hoje lidera a propriedade carregando o DNA e a memória do pai, cujas cinzas repousam na árvore mais alta da fazenda.

Embora formada em Engenharia Civil e técnica agrícola desde 1988, a “voz da terra” falou mais alto. Há 12 anos, Renata retornou para consolidar a sucessão familiar. Hoje, ao lado da irmã Denise, ela gere 2.100 hectares onde a soja e o milho dividem o protagonismo produtivo.

“O sangue cooperativista corre nas minhas veias”, afirma, lembrando que a união entre os produtores nasceu da necessidade de vencer o isolamento e as dificuldades logísticas da época.

Essa visão coletiva se estende para dentro da porteira. Renata lidera uma equipe de 20 colaboradores, muitos dos quais residem com suas famílias na própria fazenda, formando uma comunidade integrada ao cotidiano do campo. Para sustentar essa estrutura e garantir a competitividade, a produtora investe em certificações rigorosas que atestam a qualidade e a sustentabilidade do negócio.

“Ninguém faz nada sozinho. O sucesso aqui é fruto do trabalho dessa equipe”, pontua.

Essa liderança sensível, no entanto, não camufla o rigor necessário na tomada de decisões. A gestão no campo exige uma determinação que Renata herdou da firmeza paterna. Em um ambiente majoritariamente masculino, ela não abre espaço para hesitações.

“Sou uma mulher muito firme. Aprendi com meu pai e não desisto fácil”, destaca, evidenciando a postura essencial para comandar uma operação de grande escala”, reforça.

Desafios a céu aberto

Na prática, essa firmeza se traduz em um monitoramento implacável da safra. Ao mostrar o ritmo de trabalho no campo à reportagem do Portal Boletim Goiás, a produtora detalhou como o clima dita o movimento das máquinas. Após enfrentar seis dias de chuvas intensas que paralisaram a produção, Renata descreve o gargalo logístico com precisão técnica.

“Hoje, com sol, operamos no sistema ‘bate e volta’: o caminhão descarrega na cooperativa e retorna rápido. Mas quando a soja está úmida, o secador não vence a demanda e o caminhoneiro chega a ficar um dia e meio parado, aguardando a vazão”, explica.

Gerir uma “indústria a céu aberto” impõe uma série de desafios econômicos que Renata monitora de perto. Ela relata que os custos de produção, como sementes, adubação e fertilizantes, sobem diariamente, enquanto os preços das commodities seguem em queda, estreitando as margens de lucro.

“Cada dia que passa a produção está sendo mais cara, então a gente tem que rezar para pagar a conta”, revela a produtora. Apesar da pressão financeira, a conexão com a terra prevalece como motivação principal. “Nós produzimos de coração porque gostamos. Se nós não produzirmos, quem vai alimentar esse país? Quem vai alimentar esse mundo?”, evidencia a produtora rural.

A resposta para esses desafios é a tecnologia regenerativa. Renata investe em pátios de compostagem e defensivos biológicos para reduzir a dependência de químicos.

“Temos que ser uma agricultura além de produzir; ser uma agricultura regenerativa para deixar para o futuro”, afirma. Esse compromisso com o amanhã ganha força com os filhos, Oliver e Tarsila. Ambos seguem a formação acadêmica no setor, um passo que alimenta as expectativas da mãe.

“Eles estão formando em agronomia, então espero que eles venham para dentro e ajudem a gente a gerir”, projeta Renata. É a quarta geração preparando-se para perpetuar um legado de mãos que, com coragem e inovação, continuam a alimentar o Brasil.

Gestão com pertencimento

Essa força individual de Renata encontra eco em um movimento institucional que ganha corpo em todo o estado. Ângela Van Lieshout, presidente da Comissão das Produtoras Rurais da FAEG, observa que o protagonismo feminino deixou de ser uma ocupação de espaço para se tornar uma mudança estrutural.

Para Ângela, o agro goiano vive uma revolução de “pertencimento”, mas que exige uma transição drástica de mentalidade. “Hoje, o produtor precisa enxergar sua propriedade como uma empresa, uma verdadeira indústria a céu aberto”, defende.

Segundo a presidente da FAEG Mulher, um dos maiores desafios atuais é a especialização para lidar com a burocracia e a gestão eficiente diante da volatilidade econômica.

“Como lidar com o preço das commodities hoje? Estamos vendo uma crise que envolve todos, principalmente os produtores de grãos. É nesse cenário que a mulher se destaca, pois ela costuma estar à frente da gestão, buscando capacitação para trazer eficiência para dentro da porteira”, observa.

Ângela dedica seus esforços para desconstruir a invisibilidade que ainda persiste em muitas propriedades. “Muitas dizem: ‘eu sou só esposa’. Nós explicamos que, se você assina os documentos da fazenda, você é proprietária e produtora”, ressalta.

Ela enxerga a mulher como o “amortecedor” emocional da família e peça-chave na continuidade do negócio. “Ela é a ponte na sucessão familiar. Consegue entender as dores que o pai tem em relação aos filhos e vice-versa, acolhendo e devolvendo de forma tranquila, evitando conflitos que destroem empresas”, pontua.

Nesse papel de suporte, a presidente reforça que a Federação atua como o braço direito da produtora. “A FAEG existe para acolher as dores da mulher do campo. Onde ela se sentir fragilizada ou precisar de apoio na gestão, ela tem uma casa por ela”, acrescenta.

Esse acolhimento também se traduz em proteção física por meio do projeto Segurança da Mulher no Campo. Em parceria com o Batalhão Rural e a rede Maria da Penha, o programa utiliza o aplicativo Mulher Segura para levar georreferenciamento e proteção até as porteiras mais remotas. “Na zona rural, como essa mulher era assistida? Agora, pelo app, o atendimento chega de forma rápida”, sublinha Ângela.

Suporte técnico e liderança na COMIGO

Enquanto a FAEG fomenta a identidade da produtora, é através do Programa Mulheres Cooperativistas da COMIGO que essa força ganha a musculatura técnica necessária para a sobrevivência do negócio. Siomara Martins, Coordenadora de Desenvolvimento de Cooperados, relata que a cooperativa identificou, anos atrás, uma vulnerabilidade crítica: o distanciamento feminino da gestão direta.

Em casos de sucessão repentina ou separação, por exemplo, essa falta de envolvimento colocava o patrimônio em risco. “Muitas mulheres acabavam vendendo a terra por falta de consciência do negócio. Os filhos ainda eram pequenos ou estavam estudando, e elas se viam sem ferramentas para gerir”, ressalta Siomara.

Hoje, o cenário em Rio Verde e nos outros 19 municípios de atuação da COMIGO é de uma transformação comportamental. “Antigamente, a mulher ficava dentro da caminhonete, no pátio da cooperativa, esperando o marido resolver os negócios. Agora, ela desce do carro, entra, participa das pré-assembleias e das palestras técnicas. Ela exige saber sobre reforma tributária, gestão trabalhista rural e mecanização”, frisa.

Siomara recorda ainda de uma produtora de Montes Claros de Goiás que viajava quilômetros para participar das capacitações. “Ela brincava com a gente que vinha ‘na força do ódio’, mas não desistia, porque é ela quem faz tudo, contrata peão, fiscaliza, decide”, relembra.

Essa determinação culmina em uma rede de apoio que não termina com o curso. Atualmente, as mulheres formadas pela COMIGO mantêm uma Comissão que se reúne com frequência para confraternizações em fazendas, trocando “figurinhas” e compartilhando experiências positivas.

O reflexo mais contundente dessa transformação aparece na organização financeira. Siomara descreve cenários de produtores de médio e grande porte que operavam safras inteiras sem o domínio exato dos custos.

“Fiquei impressionada ao encontrar operações robustas sem uma única planilha. Quando a mulher se capacita, ela descobre o poder do controle”, observa a coordenadora.

Essa nova ordem administrativa gera relatos que misturam surpresa e eficiência. A coordenadora destaca a fala de um produtor impactado pela nova postura da esposa.

“Depois que ela implementou essa tal de planilha, não sei se choro ou se comemoro, porque agora enxergo exatamente cada centavo que sai do caixa. Mas, sem dúvidas, está melhorando muito a nossa gestão na propriedade”, disse o produtor.

Mais do que organizar as contas, as mulheres tornaram-se defensoras do sistema cooperativista dentro de casa, compreendendo que a força da COMIGO é a força do próprio negócio. Siomara exemplifica essa postura com o caso de uma cooperada que foi enfática ao avisar o marido que, dali em diante, as compras seriam apenas na cooperativa. “É isso que garante a nossa cota e o nosso futuro”, afirmou a produtora.

Capacitar para liderar

O apoio da COMIGO à presença feminina no campo é conduzido de forma estratégica pelo seu Departamento de Promoção Social. Longe de ser apenas um movimento de inclusão, a cooperativa enxerga a capacitação das mulheres como um motor de sustentabilidade econômica para as propriedades rurais. Essa engrenagem gira por meio do Programa de Formação de Mulheres Cooperativistas, que profissionaliza o olhar da mulher tanto para a gestão interna quanto para o sistema cooperativo.

Para Siomara Martins, essa transformação acontece em frentes que traduzem a teoria em resultados práticos. Na Educação Cooperativista, as mulheres mergulham no Estatuto Social da COMIGO, deixando de ser apenas ouvintes para se tornarem vozes ativas nas pré-assembleias, onde o futuro da cooperativa é decidido. “Quando a mulher entende seus direitos e deveres, ela se torna a guardiã do sistema”, ressalta a coordenadora.

Na frente administrativa, o curso promove o que as cooperadas costumam descrever como uma verdadeira “revolução das planilhas”. Através de módulos práticos de gestão, elas introduzem o rigor nos custos de produção, no fluxo de caixa e na organização de pessoal, ferramentas essenciais para proteger o patrimônio diante da volatilidade das commodities.

Por fim, a imersão técnica fecha o ciclo. Por meio de dias de campo e palestras sobre biotecnologia e nutrição, a COMIGO garante que a produtora vá além da administração, dominando a linguagem técnica da terra. Ao consolidar esse aprendizado, ela lidera equipes, fortalece a conexão com outras produtoras e negocia junto a fornecedores sob a autoridade de quem entende cada detalhe da produção.

Tecnoshow 2026: O Agro Conecta

Se a capacitação acontece no dia a dia das salas de treinamento e na lida das propriedades, é na Tecnoshow COMIGO que essa evolução ganha escala global. Entre os dias 6 e 10 de abril de 2026, o Centro Tecnológico COMIGO (CTC), em Rio Verde (GO), deixa de ser apenas um pátio de exposição de máquinas para se tornar o epicentro da gestão e da alta tecnologia. Para a mulher do campo, a feira não é apenas um evento de negócios; é o momento de validação de sua jornada de liderança.

O tema da 23ª edição, “O Agro Conecta”, traduz com precisão o atual estágio da atividade rural. O conceito ressalta os fatores essenciais que sustentam o setor: a tecnologia que chega ao campo, o alimento que alcança a mesa e a sustentabilidade que garante a produtividade. Essa conectividade evidencia que a relevância do agronegócio transborda a porteira, impactando toda a sociedade que depende do que é produzido no solo goiano.

Para as mulheres que integram o Programa de Formação de Mulheres Cooperativistas, essa conexão é palpável. Como destaca Siomara Martins, a feira é a prova viva de que o agro é feito de gente.

“Ver o brilho nos olhos dessas mulheres ao entenderem que aquela tecnologia exposta ali é para elas, e que possuem total capacidade técnica para operá-la, é o maior resultado que podemos colher”, afirma a coordenadora.

A força do evento é sustentada por números que impressionam. Após uma edição histórica em 2025, que reuniu mais de 140 mil visitantes e movimentou mais de R$ 10 bilhões, a Tecnoshow 2026 reafirma seu papel social e científico. Além de ser uma vitrine tecnológica, o evento mostra que, ao integrar ciência e desenvolvimento humano, o agronegócio não apenas produz, mas conecta o futuro do campo ao futuro das famílias que nele vivem.

O novo retrato do agro

A trajetória de resiliência de Renata Ferguson e o suporte estratégico oferecido pela COMIGO não são casos isolados, mas o reflexo de uma transformação silenciosa e vigorosa que redesenha o mapa do campo brasileiro. O que se vê na Fazenda Santa Cândida traduz o fenômeno estatístico do agronegócio brasileiro, que ganha definitivamente rostos e nomes femininos.

Embora o último Censo Agropecuário do IBGE (2017) tenha registrado que 20% das propriedades rurais eram comandadas por mulheres, o campo hoje respira uma nova realidade. Segundo o “Boletim Mercado de Trabalho do Agronegócio Brasileiro” (Cepea/USP), a participação feminina avança em um ritmo muito mais acelerado que a masculina.

Na comparação entre o segundo trimestre de 2024 e 2025, o número de mulheres ocupadas no agro saltou 1,9% (203 mil novas trabalhadoras), enquanto o crescimento masculino foi de apenas 0,2%. Hoje, elas já representam 38% de toda a população ocupada no setor.

Essa presença expandiu-se para além das funções auxiliares, ocupando áreas que exigem alto rigor técnico e visão de longo prazo. O destaque absoluto reside na gestão e sucessão familiar, onde as mulheres atuam como agentes de modernização, profissionalizando processos e garantindo a continuidade do legado com modelos de negócio mais eficientes. Outras frentes onde o protagonismo feminino é crescente incluem: Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), Ciência aplicada à produtividade, Sustentabilidade e ESG, Tecnologia e Agricultura Digital e Cooperativismo e Finanças.

Força feminina em Goiás

Em solo goiano, onde Renata Ferguson e tantas outras cooperadas da COMIGO escrevem seus capítulos, os números ganham contornos de excelência. De acordo com a SEAPA-GO, as mulheres já comandam cerca de 4,2 milhões de hectares no estado, estando à frente das decisões principais em aproximadamente 16% dos estabelecimentos rurais.

O diferencial da gestora goiana é o preparo. Elas possuem, em média, 30% mais escolaridade que os homens na mesma função, e cerca de 60% delas já contam com ensino superior ou pós-graduação. Essa sede por conhecimento reflete diretamente na longevidade das propriedades.

Dados do Sescoop/OCB-GO revelam que, embora 75% das produtoras goianas tenham ingressado no setor via sucessão familiar, elas são as protetoras da terra. Quando a mulher assume a gestão, a probabilidade de a fazenda permanecer com a família por mais uma geração aumenta em 35%, registrando uma das menores taxas de desistência do país.

Esse fortalecimento da presença feminina consolida uma nova arquitetura para o agronegócio goiano, na qual a profissionalização se torna o alicerce da continuidade. Ao unir o suporte do cooperativismo à alta capacitação técnica, essas gestoras não apenas garantem a eficiência ‘da porteira para dentro’, mas asseguram que o legado das famílias rurais atravesse gerações.

Mais do que uma mudança positiva nas estatísticas, esse protagonismo consolida uma sucessão mais segura, provando que o futuro do campo nasce da união entre o conhecimento, as pessoas e a terra, uma conexão estratégica que preserva as raízes enquanto impulsiona o desenvolvimento de toda a sociedade.

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