ONU faz críticas aos EUA e pede que país reveja política migratória durante a Copa do Mundo

Às vésperas do início da Copa do Mundo, o Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, fez um apelo para que os Estados Unidos promovam uma ampla revisão de suas políticas migratórias. Nesta quarta-feira, 10, o representante da ONU afirmou estar preocupado com medidas que, segundo ele, já vêm impactando participantes e torcedores do torneio.

Segundo Türk, temas como “perfilamento racial, vigilância e aplicação das leis de imigração” têm gerado episódios que levantam dúvidas sobre a condução das políticas adotadas pelo país anfitrião. O Mundial, que começa nesta quinta-feira, 11, reúne 48 seleções e será disputado ao longo de 39 dias.

Entre os casos mencionados pelo comissário estão a transferência da seleção do Irã de um centro de treinamento no Arizona para o México, a negativa de vistos a integrantes da delegação iraniana, a proibição de entrada nos Estados Unidos do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan e a divulgação de imagens que mostram um jogador da seleção de Senegal sendo revistado por um agente de segurança ainda na pista de um aeroporto.

“Vimos algumas dessas cenas”, afirmou Türk durante entrevista coletiva na sede do escritório de direitos humanos da ONU. “Espero que as questões relacionadas ao perfilamento racial, à vigilância e à aplicação das leis de imigração não afetem esta Copa do Mundo da forma como já vêm afetando”, declarou.

Outro episódio que ganhou repercussão foi o do atacante Aymen Hussein, principal nome da seleção do Iraque. O jogador foi submetido a cerca de sete horas de interrogatório após ser detido pelas autoridades no Aeroporto Internacional O’Hare, em Chicago. Já o fotógrafo oficial da equipe permaneceu aproximadamente 10 horas retido na imigração antes de ter a entrada nos Estados Unidos negada.

Embora a competição seja organizada conjuntamente por Estados Unidos, Canadá e México, os norte-americanos receberão a maior parte das 104 partidas do torneio. As críticas feitas pelo representante das Nações Unidas, no entanto, foram direcionadas especificamente às políticas de imigração adotadas por agências federais durante a administração do presidente Donald Trump.

“Espero sinceramente que haja uma profunda reavaliação da forma como a fiscalização migratória respeita os direitos humanos e a dignidade humana”, disse Türk. “E espero que, especialmente por causa da Copa do Mundo, haja uma revisão das políticas que, infelizmente, estamos vendo prevalecer, sobretudo nos Estados Unidos neste momento.”

Copa deve ser de integração entre os povos, diz ONU

Para o Alto Comissário, grandes eventos esportivos devem servir como instrumentos de integração entre os povos. “O esporte global deve ser um lugar onde o mundo se reúne em unidade e em paz”, afirmou.

Ele também ressaltou que competições desse porte precisam oferecer um ambiente seguro e respeitoso para todos os envolvidos. “Está claro que o ambiente em que megaeventos esportivos, incluindo a Copa do Mundo, acontecem, deve proporcionar um espaço digno e seguro não apenas para as equipes que competem, mas também para os torcedores, para toda a sociedade e, francamente, para o mundo.”

Nos últimos dias, torcedores de países como Marrocos e Escócia relataram que tiveram seus documentos de viagem negados ou cancelados pouco antes do embarque, apesar de terem investido milhares de dólares em passagens, hospedagem e ingressos para acompanhar o torneio.

As regras estabelecidas pela Fifa em 2017 para os candidatos a sediar a competição determinam que o processamento de vistos “deve ser aplicado de maneira não discriminatória”, embora ressaltem que essa exigência não pode “afetar negativamente os padrões nacionais de imigração e segurança”.

Árbitro impedido de entrar nos EUA

Um dos casos que ganharam repercussão internacional foi o do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, escolhido pela Fifa para integrar o quadro de arbitragem da Copa do Mundo. Segundo uma autoridade norte-americana, a entrada dele foi negada devido a uma “associação com suspeitos de integrar organizações terroristas”, sem que fossem apresentados detalhes ou provas para sustentar a alegação.

O episódio também gerou questionamentos sobre a capacidade da Fifa de assegurar a participação de seus profissionais no torneio, apesar da aproximação do presidente da entidade, Gianni Infantino, com Donald Trump e integrantes do governo dos Estados Unidos nos últimos 18 meses.

A própria Fifa afirma adotar os princípios orientadores das Nações Unidas sobre empresas e direitos humanos, compromisso que, segundo a entidade, se estende à organização de suas competições.

Ao comentar o cenário, Türk afirmou que a discussão ultrapassa o contexto da Copa do Mundo e envolve a forma como migrantes, refugiados e solicitantes de asilo são tratados ao redor do mundo. “Também espero que a desumanização do outro, a desumanização dos migrantes, dos refugiados e dos solicitantes de asilo chegue ao fim”, declarou. “Ninguém se beneficia de discursos que promovem divisão e polarização”, acrescentou. *Com informações da AP.

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